Ao passar há dias na Rua Domingos Sequeira, olhei para o cinema Paris como já não o fazia há muito. Nunca lá fui ver cinema. Mas, após alguma pesquisa, descobri que foi inaugurado em 1931 e depois de décadas de sucesso e popularidade acabou por fechar as portas no final dos anos 70. Lembro-me quando há poucoas anos a Câmara de Lisboa, liderada por Santana Lopes, avançou para a sua demolição, mudando de ideias poucos dias depois. Falou-se, mais ou menos na mesma altura, de um projecto destinado a transformar o Paris num hotel entre outras coisas. Depois deixou de se falar. Desde então, o Paris agoniza num coma profundo.
A decadência e o esquecimento do Paris fez-me pensar nos outros cinemas espalhados pela cidade. Nos desaparecidos, fechados, demolidos, esquecidos. Cinemas de outro tempo. Do tempo em que o caminho para o cinema não passava pelo centro comercial.
Não sou do tempo que se andava, com os amigos, por tudo quanto era sala de cinema de Lisboa – como ouvi dizer do meu pai - do Bélgica ao Rex, do Royal ao Império, do Monumental ao Lys, do Tivoli ao Éden.
Não conheci as salas que reuniam milhares de mulheres sozinhas que ali passavam a tarde de domingo, vestidas com conjuntos de malha, enquanto o magala que lhes prometera casamento ia e vinha das colónias. Era todo um mundo triste e esperançoso cheio de cartas, madrinhas de guerra, choros. Das senhoras de casacos de peles e colares de pérolas que não perdiam uma espanholada, dos pais e filhos nas matinés de qualquer western-spaghetti. Mas até eu tenho saudades desses filmes que nunca vi.
Conheci apenas alguns já em fase terminal, mas mesmo esses poucos foram suficientes para me fazer perceber de que eu gosto é da sala, uma sala de cinema, uma autêntica sala de cinema, com foyers, varandas, balcões e écrans. Preciso de um Paris, de um Alvalade, de um Condes, de um Europa para, às escuras, chorar. E de, quando as portas se abrem, a luz do dia ferir os olhos marejados. E secar as lágrimas à pressa e, com um aperto no peito, correr para a rua, correr na rua, perder-me na rua. Não no corredor de um centro comercial.