Friday, March 31, 2006

Entretanto em Berlim

Erika von Schlutow: Let's go up to my apartment. It's only a few ruins away from here.

Thursday, March 30, 2006

A minha vida dava um filme

Tudo sai em DVD. Filmes recentes, clássicos, séries de televisão, concertos. Mais cedo ou mais tarde também há-de sair a minha vida. Mal posso esperar para ver as cenas cortadas.

Wednesday, March 29, 2006

Barulhinho bom

Há poucas coisas que me dêm tanto prazer como ir jantar fora. E há poucos restaurantes em me sinta realmente confortável. A decoração, o ambiente e, naturalmente, o que vem no prato contribui para isso. Sei não tenho a erudição gastronómica suficiente. Mas também sei o que é boa comida.
Não gosto de ir jantar fora ao restaurante do bairro só porque tenho mesmo que comer alguma coisa. Quando muito posso fazê-lo ao almoço.
Sair para jantar é, para mim, uma ocasião importante. Não porque o faça 3 vezes por ano mas porque a escolha do restaurante é criteriosa. Porque os restaurantes que eu gosto são para as ocasiões em que estou acompanhado. Nunca me ocorreria ir sozinho a um dos meus restaurantes preferidos.
Acho que um restaurante é muito mais do que tem na ementa. Considero realmente importante o ambiente de um restaurante para que este entre para a lista dos meus preferidos. O melhor indicador do sucesso de um restaurante é um ambiente em que se ouve um barulho de fundo de vozes em conversas alegres. Sem berros e histerias ou grupos de alcoolizados cantando “parabéns a você”. Apenas um som constante. Um burburinho agradável. Adoro ver mesas de restaurantes em que todos participam alegremente na conversa. Dá-me vontade de me juntar a eles. Confesso que, muitas vezes, cedo à curiosidade e tento ouvir parte das conversas.
Há já algum tempo reparo em casais, ou mesmo mais comensais, nos restaurantes que frequento que não falam. Vejo-os sentados na mesma mesa, escolhendo vinho e olhando a ementa com atenção. Mas não falam. Naturalmente sei que para se comunicar com outra pessoa não é necessário verbalizar, principalmente se for o nosso parceiro. Se há pessoa com quem não devemos temer o silêncio, é essa. Mas confesso que num restaurante isso me causa um certo desconforto.
Porque para mim é uma ocasião de partilha. Este desconforto instala-se principalmente quando esse é um dos meus preferidos. E se o é, é porque o pode ser. Acho que a qualidade da comida, do serviço e do ambiente devem ser usufruidas em grupo. Podendo ser só um grupo de dois. Mas eu não consigo fazê-lo em silêncio.

Monday, March 27, 2006

M'Lady

Uma Senhora nunca dá seca. Seja em que cidade for.
Uma Senhora é uma profusão de jóias, perfumes, rouge (e não blush), penteados cuidados, entusiasmos e apetites. Uma Senhora não se veste de forma extravagante. Uma Senhora só tem orgasmos por uma questão de educação. Uma Senhora tem afecto pelas suas crianças mas não chama atenção para isso. Uma Senhora não provoca alvoroço seja em que circunstância for.
Uma Senhora é seguida para a sepultura por amigos dotados de extremo auto-controle e por caixeiras de loja em pranto descontrolado. Uma Senhora ficaria mortificada por tal espectáculo. Que alvoroço!

Wednesday, March 22, 2006

Um assunto que ontem discuti com o Dalai Lama

A prática de “casualmente” mencionar pessoas importantes e conhecidas para impressionar o interlocutor. Em inglês chama-se name dropping. Vou usá-lo no original pois parece-me mais rico do que qualquer tradução que possa existir em português.
Name dropping. É uma doença altamente contagiosa. O número de enfermos não pára de aumentar. Estão por todo o lado. Sentam-se à mesa connosco. E as listas de nomes que debitam são cada vez maiores. E cada vez menos interessantes, diga-se.
Em cada 4 frases é possivel serem mencionados 2 nomes da moda, 4 das artes, 3 da política, 2 da literatura. Quanto mais melhor e quanto menos isso contribua para a conversa, melhor ainda.
Claro que as pessoas interessantes me fascinam. E falar sobre elas faz parte e é necessário. Tenho as minhas opiniões sobre outras pessoas e interesso-me sobre as opiniões dos outros sobre as pessoas. Quando a prática é inadvertida ou é essencial para o assunto em discussão é obviamente perdoável. Mas o name dropping é altamente irritante quando alguém o faz simplesmente para seu próprio proveito, seja para ser melhor tratado por conhecer tal e tal ou simplesmente por gabarolice.
O name dropping é um meio dessa pessoa se sentir mais seguro, convencendo-se que tem alguma importância, de que também é alguém ou de que alguém, algum dia, também vai usar o seu nome no name dropping.
Acho compreensível, mas triste.
Além disso, o name dropping é mais desagradável quando a alguns dos participantes da conversa faltam nomes retaliatórios. Essas pessoas são postas de parte pelo facto de, por qualquer razão, não serem tão bem relacionadas como o name dropper. Ou pelo facto de não terem tão boa memória.
O que alguns name droppers não sabem é que, na maioria das vezes, o mais interessante neles são os nomes que eles conhecem.

Tuesday, March 21, 2006

Derivado a ser imbecil

Ouço, todos os dias, nas ruas da cidade verdadeiros atentados cometidos contra a língua portuguesa. O exemplo para aqui chamado hoje é infelizmente típico e assustadoramente frequente. Alguém que explique a alguém que “derivado a” não é sinónimo de “devido a”!

Monday, March 20, 2006

Pessoas como o Narciso

Confesso que sinto uma certa repulsa quando uma pessoa por quem não tenho grande estima intelectual revela a sua admiração por alguma coisa que considero verdadeiramente boa. Seja um disco, um filme, um livro ou mesmo um restaurante.
Alguém a quem não reconhecemos qualquer critério nas suas escolhas é alguém que gostamos de desprezar em segredo. Mas quando essa mesma pessoa mostra que tem, afinal, um ponto em comum com as nossas referências estamos perante o eterno dilema de termos que partilhar algo com pessoas de quem não gostamos muito.
De facto a posse intelectual é parente do narcisismo.

Friday, March 17, 2006

Dial G for Game

Há uma coisa que me dá tanta seca na cidade como no campo. São aquelas pessoas que quando falo com elas pelo telemóvel dizem, antes de tudo, “onde é que estás?”. Isso irrita-me tanto que nem me dá vontade de continuar a conversa.
Porque na maioria das vezes a pergunta é absolutamente irrelevante para a conversa que se segue. Entendo que a natureza deste meio de comunicação se presta a um tipo de exibicionismo a que todos cedemos voluntária ou involutariamente. Não posso deixar de admitir que é agradável poder responder “estou em Londres” e não “estou em casa a ver televisão”. Mas isso é o snob em mim a falar.
Muitas vezes o que o meu interlocutor quer é dizer onde é que está, quer que eu saiba onde está, e para isso começa por perguntar onde eu estou.
O que me leva a outra questão. A necessidade de ser querido. De ter importância. Todos a temos, é um facto. Mas uns têm-na por telefone. Ou melhor, por telemóvel. Sinto que este é o meio privilegiado para um constante marcar presenças e fazer sentir ausências que muitas pessoas exercem num ritual em espiral e que a mim muito me aborrece.
É de um jogo que se trata, parece-me. Algumas pessoas que estão na minha agenda telefónica gostam de o jogar. Quaisquer jogadas são permitidas desde que o objectivo seja o de marcar uma posição, de fazer notar essa importância. O peão é obviamente o pequeno telemóvel.
As jogadas passam por informar que se está num local extremamente interessante rodeado de gente que o é ainda mais. Marcar encontros aos quais não se tenciona comparecer. Cobrar telefonemas que na realidade não se queriam receber. Fazer telefonemas que na realidade não se queriam fazer. Não fazer telefonemas que se querem fazer. Fazer telefonemas mas que não se quer que sejam atendidos. As combinações são quase infinitas.
Quem ganha o jogo? Quem fizer menos? Ou quem fizer mais? Quem perde? Quem atender menos? Ou desligar mais?
Tenho saudades dos telefones de baquelite, pretos, com disco, pesadíssimos.
Eram tão mais práticos.

Thursday, March 16, 2006

Assistido numa tabacaria da cidade.

O cliente deita ao chão algumas revistas e não mostra intenção de as apanhar.

Empregado: Não vai apanhar o que fez cair?

Cliente: Não me posso dobrar, tenho um problema nas costas.

Empregado: Faça de conta que é uma nota de 10 euros.

Wednesday, March 15, 2006

In english it could sound so much better.

As palavras falham-me há alguns dias já.

Thursday, March 09, 2006

Gone with the wind

Há já algum tempo que reparo em chapéus abandonados nas ruas da cidade. Interrogo-me, sempre que deparo com mais um deles, sobre o motivo que terá levado ao seu abandono. Terá sido perdido? Levado pelo vento? Deitado fora? Ou simplesmente abandonado deliberadamente? No destino destes chapéus está toda a substância da perda.
Já quase não há lojas de chapéus. Já quase não se vêm pessoas de chapéu fora do mundo militar. Não entram nesta categoria os bónes daqueles masca-pastilha, grita-na-rua, de calças justas e argolas nas orelhas, encostados à porta do ponto de encontro nocturno do bairro. A estas pessoas esquecíveis é impossível considerá-los utilizadores de chapéu.
Chapéus a sério, parecem ter sido perdidos com o tempo. Como é que uma coisa tão simples mas com tanto estilo passou de moda? Em qualquer fotografia tirada nos anos 30 vê-se um mar de chapéus. Nos anos 50 começou o seu declínio e nos anos 60 estavam já quase desaparecidos.
É uma triste perda.
E nem falo da praticidade de protegerem da chuva ou do sol, ou da pura distinção que confere ao seu utilizador. O chapéu era um dispositivo de sinalização indicador de uma atitude para com os outros pelo simples tocar, levantar, posicionar ou segurar. Um homem levantava sempre o chapéu a uma senhora e com este gesto podia saber-se quase tudo sobre ele. E havia todo um mundo de regras sociais complicadíssimas que desconheço.
Gostava que mais cedo ou mais tarde esse tempo encontrasse maneira de regressar. E os chapéus não se perdessem. Já não há muitos.

Wednesday, March 08, 2006

Dia Internacional da Mulherzinha

Seria bom que este texto fosse dedicado a Louisa May Alcott.
Mas não é.
É dedicado a toda as mulherzinhas que me dão seca todos os dias na cidade.

Mulherzinha que tratas por “filha” outras mulheres.

Mulherzinha que levas a carteira debaixo do braço quando vais ao café e a colocas muito expedita em cima do balcão enquanto pedes um garoto à Tina.

Mulherzinha que olhas outras mulherzinhas da cabeça aos pés pelo canto do olho, esquecendo que elas te estão a fazer exactamente o mesmo.

Mulherzinha que vais com pelo menos 3 das tuas “colegas” à Zara na hora de almoço e mentes às mesmas dizendo-lhe que as calças sintéticas justas lhe ficam muito bem.

Mulherzinha que chupas as bochechas amuada quando vais no carro ao lado do teu maridinho e ele não ouve metade da tua conversa.

Mulherzinha que quando te perguntam pelo fim-de-semana respondes “Eh, passou-se”.

Mulherzinha que fumas e que, enquanto seguras o cigarro entre o indicador e o dedo médio, esfregas o mindinho e o polegar.

Mulherzinha que trocas receitas com outras como tu e mal chega a casa faz questão de a
experimentar, fazendo relatórios completos no dia seguinte.

Mulherzinha que usas botas elásticas com salto de cunha.

Melhores dias virão.

Tuesday, March 07, 2006

Vamos à bica?

Arriscando ser excomungado, expatriado e exilado, resolvi escrever sobre essa instituição nacional que é o café em Portugal. Ou em Lisboa, que é a cidade atingida por esta seca. Há vários anos fiz uma descoberta que quase me colocou em perigo de vida: que a maioria do café que se bebe aqui é uma merda. Falo de perigo de vida pois esta descoberta e consequente partilha da mesma, me fez alvo das mais variadas críticas e impropérios. É que a opinião geral em relação ao café nacional parece ser que este não é nada menos do que uma dádiva de Deus. Não há como a bica portuguesa, parece ser o consenso geral. Não há nada que se compare em Espanha, França, nos Estados Unidos ou mesmo em Itália, por acaso o país onde foi inventada a máquina que faz o expresso tão amado.
As conversas de café, não no verdadeiro sentido da expressão, já me trouxeram imensos dissabores. Já fui ignorado, insultado, ultrajado e gozado sempre que expressei a minha antipatia pelo cafézinho cá da terrinha. Curiosamente nem sou daquelas pessoas que não vivem sem a sua dose de cafeína logo pela manhã. Muitas vezes, passam-se dias sem beber café.
O problema é que gosto da bebida. Do café, entenda-se. E quando o bebo gostava de dizer que gosto do que bebo. Mas não posso. O que me é servido fora de casa é algo que cheira a café, é da cor do café mas que não sabe a café. E parece que é só a mim. Talvez seja da água, da máquina ou mesmo da qualidade do café. Ou de tudo isso ao mesmo tempo.
Não quero com isto fazer apologia aos cafés de outras paragens mas, mesmo correndo o risco de parecer snob, tenho que dizer que consigo beber cafés melhores do que o “nosso” em qualquer dos países que já visitei. Podia aproveitar a oportunidade e ter mesmo uma postura snob explicando como se faz um bom café. Não o vou fazer, mas sei fazê-lo.
E sei distinguir entre bom café e mau café.
O que é certo é que continuo a bebê-lo. Ao mau. Um pouco por hábito, por solidariedade ou pelos mecanismos que desencadeia na minha cabeça. Associo o café a prazer, a conforto e a bem estar. Procuro encontrar essas sensações numa chávena mas raramente o seu conteúdo é mais do que decepção.
Não sei se repararam que, no início, eu disse a maioria. Por isso antes de me apedrejarem, digo que claro que sei há agradáveis excepções. Em Portugal e tudo.
Correndo um risco final, não posso deixar de fazer menção ao hábito tão português de beber o café ao balcão, que esse então tira-me do sério. Há poucas coisas mais deprimentes do que ver toda aquela gente a acotovelar-se nos quiosques de centro comercial ou em qualquer café carregadinho de espelhos e luz fluorescente, bebendo a sua “biquinha”. Os arrepios que este diminutivo me provoca podiam levar-me por outros caminhos na rota do café, mas prefiro acabar a viagem aqui e dizer apenas que o café da cidade não é mesmo my cup of tea.

Monday, March 06, 2006

O táxi dos meus sonhos.

Luz verde acesa. Entro no carro. O taxista cumprimenta e não está a fumar, a ler o jornal ou a ouvir o “relato” em altos berros. O táxi não cheira a mofo nem a refogado.
O condutor é educado, desodorizado, tem troco e agradece a gorjeta.
Entre o “Boa noite” e o “Obrigado e boa noite” não há travagens inesperadas, velocidades alucinadas nem desvios premeditados.

Friday, March 03, 2006

Mal por mal, a melancia.

“Que livro é que é que andas a ler?”, é uma pergunta que algumas pessoas gostam de fazer e que se às vezes serve para quebrar o gelo, outras é feita por genuína curiosidade. Por muito interessante que seja saber o que os outros andam a ler, e poucas vezes é, há uma coisa que me deixa ainda mais curioso. A pergunta “Que fruta é que andas a comer?”. Considero que a resposta a esta pergunta é muito reveladora. Não tanto como a anterior, mas há coisas que não se querem reveladas.
Isto porque é provável que a resposta à pergunta do livro seja ou “Anjos e Demónios”, ou “Toda a Verdade Sobre o Código Da Vinci”, ou, ainda, “Tudo o Que Sempre Quis Saber Sobre Anjos e Demónios e Dan Brown Nunca Teve Coragem Para lhe Dizer”. Naturalmente, como já devem ter percebido, prefiro saber que fruta se come.
A escolha da melancia ou dos morangos, prende-me o interesse. “Anjos e Demónios” nem por isso. Aliás, pelo contrário.
Vem isto a propósito dos livros que vejo serem lidos nesta cidade. Por um lado, fico agradecido por saber que com o sucesso do Dan Brown, vejo menos pessoas a ler os “livros” da Margarida Rebelo Pinto. Por outro lado, não deixo de achar que a praga dos livros Da Vinci inspired é uma seca enorme. Teorias a serem refutadas consecutivamente por livros atrás de livros ou intrigas de componente histórico-esotérica nem sequer especialmente bem escritas, não é exactamente o meu tipo de literatura preferido.
Outra tendência a marcar os hábitos de leituras dos lisboetas são aqueles jornais gratuitos que são distribuídos em todo o lado. Destak, Metro e afins. Dizem os seus defensores que põem os portugueses a ler nos sítios onde este hábito não era comum mas que “lá fora” é mais do que habitual, nos transportes públicos por exemplo. Talvez. O que é certo é que este é mesmo o tipo de leitura que nós, portugueses, gostamos. Rápida, superficial e descartável. Nunca repararam na quantidade deste tipo de jornais a encher os caixotes do lixo das estações de metro? De facto, aquilo lê-se na viagem do Saldanha ao Marquês de Pombal. Mais descartável impossível.
Sim, como dizem os defensores da palavra escrita, o que importa é que as pessoas leiam. Mas não deixa de ser uma seca que a resposta à primeira pergunta oscile invariavelmente entre os“anjos” e os “códigos”.
Porque se se diz que somos o que comemos, ainda bem que não se diz que somos o que lemos. Digo eu.

Thursday, March 02, 2006

Normalmente o primeiro post no blog deve ser pensado com cuidado e escrito com mais ainda. Não vá alguém não entender o que se quer transmitir. Parece-me que este é muito claro.
Trata-se de tudo aquilo que me faz sentir a seca que a cidade é. É isso mesmo. E ninguém se atreva sequer a vir com argumentos de que já basta a depressão colectiva dos portugueses, de que é típico de ser português queixar-se de tudo, incluindo tudo o que é nacional.
Não me interessa. A cidade é uma seca e eu tenho sede.